Nesta edição

 🏦  Super Quarta: Copom anuncia hoje o início do novo ciclo de queda dos juros

🇺🇸  Fed mantém juros nos EUA: núcleo do PCE em 3,1% fecha a porta para cortes agora

🛢️  Petróleo acima de US$ 101: Estreito de Ormuz segue sob tensão e preços "mais altos por mais tempo"

📊  Ibovespa fecha em alta de 0,30% na terça; dólar recua para R$ 5,20

💄  Natura reverte prejuízo e registra Ebitda recorrente de R$ 978 mi no quarto trimestre

⚠️  Governo zera PIS/Cofins do diesel e Petrobras anuncia subvenção: impacto no IPCA à frente

O contexto do dia

Hoje é a Super Quarta. Copom e Federal Reserve anunciam suas decisões de política monetária no mesmo dia, pela primeira vez em um ambiente de choque externo agudo. No Brasil, o mercado convergiu para um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, levando a taxa de 15% para 14,75% ao ano. Nos EUA, a manutenção dos juros entre 3,50% e 3,75% é o cenário-base. Mas o que mais importa hoje não é apenas o número: é o tom do comunicado de cada banco central.

O petróleo Brent seguia acima de US$ 101 por barril na terça-feira, com o Estreito de Ormuz ainda operando com restrições severas após três semanas de conflito. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou na segunda-feira que o Estreito está fechado apenas para os inimigos do Irã, frase que o mercado interpretou como sinal de que a normalização total do tráfego ainda está longe.

No campo doméstico, a bolsa fechou a terça-feira em alta discreta, o dólar recuou para R$ 5,20 e a Natura divulgou resultados do quarto trimestre que animaram os investidores. O cenário é de cautela calibrada: há alívio pontual nos ativos, mas as variáveis que definem o jogo de longo prazo, petróleo, inflação e comunicação dos bancos centrais, ainda não mostraram resolução.

 

🏦 POLÍTICA MONETÁRIA

Copom anuncia hoje o início do novo ciclo de queda dos juros

O Banco Central do Brasil conclui nesta quarta-feira a reunião do Comitê de Política Monetária que deve marcar o início do novo ciclo de afrouxamento monetário. A taxa Selic está em 15% ao ano desde junho de 2025, o nível mais alto em quase duas décadas, após uma sequência de altas iniciada em 2024 para conter a inflação. O comunicado será divulgado à tarde, após o encerramento dos trabalhos do colegiado presidido por Gabriel Galípolo.

A expectativa consolidada do mercado é de corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14,75% ao ano. Essa convergência ocorreu ao longo da semana, após o Boletim Focus de segunda-feira mostrar que as projeções de inflação subiram de 3,91% para 4,10% para 2026, reduzindo o espaço para um corte mais agressivo de 0,50 ponto. O conflito no Oriente Médio e a alta do petróleo foram os gatilhos dessa revisão.

Além do tamanho do corte, dois elementos do comunicado concentrarão a atenção dos participantes do mercado. O primeiro é a sinalização sobre o próximo passo: o Copom vai indicar continuidade do ciclo, ou adotará linguagem mais aberta e condicional? O segundo é a avaliação do cenário externo, especialmente o tratamento dado ao petróleo e à inflação global. Qualquer tom mais conservador do que o esperado pode reabrir a curva de juros futuros.

Por que isso importa para você?  Para quem tem renda fixa pós-fixada (Tesouro Selic, CDBs atrelados ao CDI), o início do ciclo de cortes não representa mudança imediata relevante: a taxa ainda estará em 14,75% ao ano, com retorno real expressivo. A atenção maior fica para o comunicado: se o Copom sinalizar cortes graduais por vários meses, isso favorece quem está posicionado em IPCA+ de prazos mais longos, que tende a se valorizar com a queda dos juros futuros.

 

🇺🇸 INTERNACIONAL

Fed decide hoje nos EUA: manutenção dos juros é o cenário-base

O Federal Reserve também conclui nesta quarta-feira a sua reunião de dois dias. A decisão será acompanhada do Summary of Economic Projections, que inclui as projeções atualizadas do próprio Fed para crescimento, inflação e a trajetória dos juros, além da coletiva de imprensa do presidente Jerome Powell.

O núcleo do PCE (índice de despesas de consumo pessoal, a métrica preferida do Fed para medir inflação) acelerou para 3,1% em 12 meses, bem acima da meta de 2% da autoridade monetária americana. Com esse dado e o petróleo ainda pressionado, a manutenção das taxas na faixa de 3,50% a 3,75% é o cenário dominante. O mercado de futuros nos EUA praticamente descartou qualquer corte em março.

A atenção estará nas projeções do "dot plot", o gráfico que indica onde cada membro do Fed vê os juros no futuro. Antes do conflito, havia expectativa de um ou dois cortes ainda em 2026. Com a alta do petróleo e a aceleração da inflação, esse número pode ser revisto para baixo. Qualquer indicação de que o Fed pretende manter juros restritivos por mais tempo tende a valorizar o dólar globalmente e pressionar ativos de países emergentes, incluindo o Brasil.

Por que isso importa para você?  Juros mais altos nos EUA por mais tempo reduzem o diferencial de rentabilidade que torna o Brasil atrativo para o capital estrangeiro. Para o investidor com carteira diversificada internacionalmente, o momento favorece atenção redobrada ao câmbio e à composição da parte dolarizada da carteira.

 

🛢️ INTERNACIONAL

Petróleo "mais alto por mais tempo": Estreito de Ormuz segue restrito

O petróleo Brent para maio operava em alta de 1,45% na terça-feira, cotado a US$ 101,66 por barril. O tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz segue severamente restrito: dados de rastreamento de navios indicam redução de cerca de 70% no movimento desde o início do conflito. Mais de 150 navios permaneciam ancorados no mar de Omã aguardando condições seguras para transitar.

O chefe da Organização Marítima Internacional afirmou que escoltas navais no Estreito não garantirão a segurança em 100% dos casos. O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou na segunda-feira que anunciaria "em breve" quais países concordaram em ajudar a reabrir a rota, reconhecendo que muitos aliados recusaram as propostas americanas até o momento. O assessor econômico da Casa Branca, Kevin Hassett, afirmou à CNBC que navios estão começando a cruzar o Estreito e que a guerra deve terminar em semanas.

No campo das projeções de longo prazo para o petróleo, o UBS revisou sua estimativa e agora espera o Brent em US$ 90 por barril até o final de junho, recuando para US$ 85 até o fim de setembro. A leitura do banco suíço é de que os preços devem permanecer "mais altos por mais tempo", mesmo que os fluxos pelo Estreito sejam retomados nas próximas semanas, devido ao aperto estrutural na oferta global causado pelo conflito.

Por que isso importa para você?  Petróleo estruturalmente mais caro tem efeito direto sobre o IPCA brasileiro via combustíveis, fretes e custos industriais. Para o investidor, isso reforça a lógica de manter posições em ativos indexados à inflação (IPCA+) como proteção de médio prazo, e a de diversificar parte da carteira em ativos que se beneficiam do ambiente de commodities elevadas.

 

📊 RENDA VARIÁVEL

Ibovespa sobe 0,30% na terça e dólar recua para R$ 5,20 com alívio externo

O Ibovespa fechou a terça-feira (17) em alta de 0,30%, aos 180.409 pontos. O movimento foi contido: o índice oscilou bastante ao longo do dia, chegou a superar os 182 mil pontos no intraday com a esperança de alívio geopolítico, mas perdeu fôlego no final da tarde após novos ataques iranianos na região. O volume financeiro do pregão foi de R$ 22,7 bilhões.

O dólar recuou 0,57% e fechou cotado a R$ 5,20 na venda. A moeda americana cedeu ante quase todas as divisas emergentes no dia, em linha com o movimento de busca por ativos de risco no exterior. No ano, o dólar ainda acumula queda de aproximadamente 4,7% frente ao real, reflexo da entrada líquida de capital estrangeiro que superou R$ 43 bilhões desde janeiro.

Uma nota de cautela veio das taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros), que fecharam em alta na terça-feira após especulações sobre possível greve de caminhoneiros nos próximos dias, o que adicionou ruído inflacionário à curva de juros. O Tesouro realizou mais duas intervenções no mercado de títulos durante o pregão, recomprando e vendendo papéis para eliminar distorções na curva a termo.

Por que isso importa para você?  A bolsa e o câmbio operam hoje em modo de espera. O resultado prático das decisões do Copom e do Fed, em especial o que cada banco central sinalizar sobre os próximos passos, deve definir a direção dos ativos nas próximas semanas. Movimentos reativos antes do anúncio costumam reverter com rapidez.

 

💄 RESULTADOS CORPORATIVOS

Natura reverte prejuízo e registra Ebitda recorrente de R$ 978 mi no 4T25

A Natura (NATU3) divulgou na noite de segunda-feira os resultados do quarto trimestre de 2025. A companhia registrou lucro líquido de R$ 186 milhões nas operações continuadas, revertendo o prejuízo de R$ 227 milhões apurado no mesmo período de 2024. As ações dispararam entre 9% e 11% na abertura da terça-feira, liderando as altas do Ibovespa.

O principal destaque foi o Ebitda recorrente de R$ 978 milhões, crescimento de 57,2% em relação ao quarto trimestre de 2024, com margem de 15,8%. A empresa conseguiu expandir margem e gerar caixa apesar de uma queda de 12,1% na receita líquida, que somou R$ 6,19 bilhões no trimestre. A retração da receita refletiu a desaceleração no Brasil, instabilidades na integração da marca Avon na Argentina e os efeitos cambiais na América Hispânica.

A dívida líquida da Natura encerrou o trimestre em R$ 3,5 bilhões, com redução de R$ 567 milhões em relação ao trimestre anterior, dentro da faixa de alavancagem considerada adequada pela companhia. Para 2026, a Natura sinalizou expectativa de recuperação gradual, com compromisso de expansão da margem Ebitda acima do patamar de 14,1% registrado em 2025. A administração admitiu que o primeiro trimestre de 2026 começa pressionado.

Por que isso importa para você?  O resultado da Natura ilustra uma dinâmica relevante para o investidor: empresas em processo de reestruturação podem apresentar queda de receita e expansão de margem ao mesmo tempo, e o mercado costuma valorizar a segunda quando é consistente. A cautela fica para 2026, ano em que a retomada das vendas ainda precisa ser comprovada nos números.

 

⚠️ ECONOMIA

Governo zera tributos do diesel e Petrobras anuncia reajuste: impacto no IPCA ainda virá

Para tentar conter o efeito inflacionário da alta do petróleo sobre os combustíveis, o governo federal adotou duas medidas em relação ao diesel: zerou as alíquotas de PIS e Cofins sobre o produto e comprometeu-se a pagar uma subvenção de R$ 0,32 por litro aos produtores. O conjunto das medidas representa uma redução de R$ 0,64 por litro para as refinarias.

No dia seguinte ao anúncio governamental, a Petrobras comunicou reajuste de R$ 0,38 por litro do diesel nas refinarias. O resultado líquido para o consumidor final dependerá do repasse feito pelas distribuidoras, mas o movimento evidencia a dificuldade do governo de isolar completamente a economia doméstica de um choque externo de energia desta magnitude.

O IPCA de fevereiro, divulgado pelo IBGE, registrou alta de 0,70% no mês e acumulado de 3,81% em 12 meses. Os combustíveis ainda não capturaram os efeitos da guerra, que começou no último dia de fevereiro. A leitura de março será o primeiro termômetro real do impacto do conflito na inflação ao consumidor. O Banco Central já estava ciente desse defasagem ao calibrar a decisão desta semana.

Por que isso importa para você?  O impacto do diesel mais caro chega ao consumidor de forma indireta: via fretes, alimentos e custos logísticos. Para o investidor, isso reforça que o IPCA de março e abril deve vir mais pressionado, o que justifica manter proteção inflacionária na carteira. Quem tem Tesouro IPCA+ pode se beneficiar tanto do carrego quanto de eventual valorização se os juros futuros recuarem com o ciclo de cortes.

 

Agenda do dia

Brasil: decisão do Copom sobre a Selic (após o mercado); leilão ordinário de LFT pelo Tesouro Nacional; Gerdau (GGBR4) paga dividendos de R$ 0,10 por ação; Banco Mercantil do Brasil paga dividendo complementar.

EUA: decisão do Federal Reserve sobre os juros americanos, acompanhada do Summary of Economic Projections e coletiva de Jerome Powell; produção industrial de fevereiro (projeção: +0,2%).

Europa e Ásia: bolsas europeias aguardam sinalização do Fed; na Alemanha, o índice ZEW de expectativas econômicas recuou para 36,0 em março, abaixo da expectativa de 33,9, mas refletindo ainda a deterioração do cenário global.

 

Perspectiva Juros & Bolsa

Esta é uma das semanas mais densas do ano para quem acompanha mercados. Duas das maiores economias do mundo anunciam suas taxas de juros no mesmo dia, em meio a um conflito geopolítico que ainda não tem data de resolução. O corte de 0,25 ponto no Brasil já está precificado. O que move os ativos a partir de hoje é o que vem depois: a velocidade do ciclo brasileiro e a postura do Fed diante de uma inflação que resiste.

Para o investidor de alta renda, a mensagem prática não muda: carteiras diversificadas, com proteção inflacionária, exposição equilibrada ao dólar e renda variável dimensionada para o risco, são as que atravessam melhor esses momentos de ruído intenso. Reagir ao noticiário hora a hora costuma custar mais caro do que manter o plano.

 

“A incerteza não é seu inimigo. Incerteza é a condição normal dos mercados. Seu inimigo é agir como se ela não existisse.”

Peter Lynch

Ex-gestor do Fidelity Magellan Fund e autor de referência em investimentos de longo prazo.

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